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Lorotas da mídia que enganaram muita gente no Dia da Mentira
1 de abril de 2010Patricia Zwipp
O dia 1° de abril é conhecido como o Dia da Mentira. Enganar um amigo dizendo que o tênis está desamarrado ou com lorotas mais elaboradas é mais do que comum. Afinal, quem nunca pregou ou caiu em uma peça na data? E essa tradição atravessa séculos.
Há muitas explicações para o dia 1° de abril ter se transformado no Dia da Mentira. A mais conhecida é a de que tudo começou por causa da mudança de calendário, na França.
O Ano-Novo era festejado no país de 25 de março a 1° de abril. Só que, com a adoção do calendário gregoriano (promulgado pelo Papa Gregório XIII, em 1582), a comemoração foi transferida para o dia 1° de janeiro. Algumas pessoas resistiram à alteração e mantiveram os costumes, enquanto os brincalhões de plantão não perderam a oportunidade de ridicularizar os conservadores na data do antigo Réveillon, enviando presentes esquisitos ou convites para festas que não existiam.
Com o tempo, a brincadeira se espalhou pelos países. Muito mais que pregar pequenas peças em conhecidos, as lorotas ganharam proporções maiores. É que os meios de comunicação também passaram a entrar no clima do Dia da Mentira. Tanto no Brasil quanto no exterior. Há alguns anos, a Associated Press fez uma lista com algumas das mentiras divulgadas pelos meios de comunicação.
No Brasil, a primeira vez que isso aconteceu na imprensa foi no século 19, quando um jornal de Pernambuco anunciou que D. Pedro II havia morrido. E em 1983, a revista Veja repercutiu uma notícia publicada dia 1º de abril pela revista New Cientist, que era, obviamente, uma mentira. Confira abaixo dez histórias que conseguiram enganar muita gente. E vamos esperar para ver se neste 1º de abril, algum meio fará a brincadeira.
1- Espaguete
Em 1957, o programa inglês de notícias Panorama, da BBC, fez uma reportagem sobre a excelente safra de espaguete na Suíça. O clima ameno e o controle das pragas teriam garantido o sucesso da colheita. Enquanto o âncora Richard Dimbleby falava sobre o assunto, o público conferia imagens de uma família retirando a iguaria das árvores.
A ideia foi do cameraman Charles de Jaeger. Ele achou que seria engraçado transformar em brincadeira do Dia da Mentira um comentário que ouviu de sua professora quando era criança: “Garotos, vocês são tão tolos, que acreditariam em mim se eu dissesse que espaguete nasce em árvore.” O resultado da lorota? Muitas ligações de telespectadores querendo saber como plantar macarrão ou reclamando do uso da mentira em um programa jornalístico sério.
2- TV em cores
Em 1962, foi a vez do canal sueco Sveriges Television pregar uma peça no público. Na época, a transmissão era em preto-e-branco e um técnico da única emissora do país descreveu o processo que permitiria que as pessoas vissem imagens coloridas.
Depois de uma minuciosa explicação, contou qual era o grande segredo: bastava colocar uma meia de náilon na televisão. Em seguida, o técnico alertou que os telespectadores teriam de sentar-se a uma determinada distância do aparelho para obter o efeito total. E mais, para alinhar o espectro de cores, bastava balançar a cabeça cuidadosamente para frente e para trás. Não é preciso nem dizer que muitas pessoas caíram na brincadeira e garantiram ter colocado em prática todos os passos sem obter a tão desejada programação em cores.
3- Redução da gravidade terrestre
Em 1976, o astrônomo britânico Patrick Moore afirmou, na BBC Radio 2, que um evento astronômico inédito estava prestes a acontecer. Às 9h47, Plutão passaria por trás de Júpiter, o que causaria temporariamente um alinhamento gravitacional, diminuindo a gravidade da Terra.
O especialista disse aos ouvintes que, se eles pulassem exatamente naquele horário, poderiam sentir a sensação de flutuar. A emissora recebeu muitas ligações de pessoas dizendo que a tiveram. Uma mulher foi além e contou que, junto com 11 amigos, teria levantado da cadeira e flutuado pela casa. Pois é, já dizia o ditado que “mentira atrai mentira”.
4- Recandidatura de Richard Nixon
Em 1992, o programa Talk of the Nation, da National Public Radio, anunciou que o ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (que renunciou ao cargo em 1974 por ter se envolvido em um escândalo, conhecido como Watergate), voltaria a ser candidato à presidência. Foram ao ar trechos do suposto discurso de Nixon, que declarava: “Eu nunca fiz nada errado e não farei novamente”.
Os ouvintes começaram a ligar para a emissora com o intuito de manifestar a indignação sobre o fato. No segundo bloco da atração, o apresentador John Hockenberry revelou que tudo não passou de uma brincadeira e explicou que a voz do ex-presidente não passava de uma imitação do comediante Rich Little.
5- Nova espécie na Antártida
A brincadeira da Discover Magazine, em 1995, foi um artigo sobre a descoberta de uma nova espécie de animal na Antártica: o hotheaded naked ice borer (uma possível tradução é atravessador de gelo pelado de cabeça quente). O responsável pelo feito seria o renomado biólogo Aprile Pazzo (tradução para o italiano do inglês April¿s Fool, como é chamado o Dia da Mentira. Pazzo ou fool é algo como bobo ou idiota em seus respectivos idiomas).
O texto relatou que o curioso bicho tinha uma placa de osso na cabeça, como uma crista, com a capacidade de aquecer-se, o que permitiria que cavasse túneis no gelo em alta velocidade. A habilidade seria usada para caçar pinguins. Depois de pesquisar sobre a nova espécie, o especialista teorizou que o hotheaded naked ice borer deveria ser o responsável pelo misterioso desaparecimento do explorador Philippe Poisson (na França, poisson d’avril “peixe de abril” é a expressão denomina o dia ou quem cai nas mentiras de 1° de abril), em 1837. “Para os ice bores, ele deveria parecer um pinguim”, declarou o fictício Pazzo no texto.
6- Compra do Sino da Liberdade
A rede de restaurantes Taco Bell anunciou n os jornais, em 1996, ter comprado o famoso Sino da Liberdade (símbolo histórico localizado na Filadélfia, Estados Unidos). Para aumentar ainda mais a mentira, afirmou que mudou o nome do símbolo para Taco Liberty Bell. Protestos não faltaram até que a empresa revelou a brincadeira.
7- Lanche para canhotos
A rede de fast-food Burger King também fez questão de mostrar seu bom humor, em 1998. Publicou um anúncio de página inteira no USA Today anunciando o novo lanche do cardápio: o Left-Handed Whopper (Whopper para Canhotos), especialmente desenvolvido para os canhotos dos Estados Unidos.
O produto, de acordo com a propaganda, tinha os mesmos ingredientes que o Whopper original, mas eram espalhados em rotação de 180°, fazendo com que a maior parte ficasse do lado esquerdo, reduzindo as chances de que caíssem do hambúrguer pelo direito. Depois de revelar a pegadinha do Dia da Mentira, a empresa divulgou que muitos clientes procuraram as lojas em busca da novidade. Além disso, alguns destros decidiram lutar por igualdade pedindo um lançamento exclusivo para eles.
8- Ilha imaginária
Em 1977, o jornal inglês The Guardian publicou um suplemento especial com informações sobre San Serriffe (serif, em inglês, significa serifa, que é o prolongamento no formato das letras), uma pequena república no Oceano Índico formada por duas ilhas com formato de ponto-e-vírgula, chamadas Upper Caisse (letra maiúscula ou no jargão jornalístico, caixa alta) e Lower Caisse (letra minúscula, ou caixa baixa). A capital era Bodoni (nome de uma família tipográfica).
Muitos leitores quiseram saber mais a respeito do local desconhecido. Só alguns perceberam que tudo sobre a república fictícia contava curiosamente com nomes de elementos tipográficos.
9- Morte de D. Pedro II
A primeira brincadeira do Dia da Mentira feita pela imprensa no Brasil aconteceu em 1848 e teria começado a difundir o costume no país. A edição número 1 do jornal A Mentira, de Pernambuco, trouxe a notícia falsa de que o imperador D. Pedro II havia morrido. A lorota realmente teve perna curta e foi desmentida no dia seguinte pelo meio de comunicação. O imperador morreu 43 anos após o fato.
10-Boimate
Em 1983, a revista inglesa New Scientist pregou mais uma de suas peças nos leitores e conseguiu enganar até uma publicação brasileira. O texto dizia que dois biólogos de Hamburgo, na Alemanha, haviam fundido pela primeira vez células de animais com de vegetais. A mistura de um tomateiro com carne de boi foi batizada de Boimate.
A revista Veja ouviu cientistas brasileiros sobre o assunto e fez uma reportagem dando como certo o avanço da biologia molecular. A publicação inglesa, como é de praxe, havia dado algumas pistas. Os biólogos chamavam-se Barry Mcdonald e William Wimpey, lembrando as redes McDonald´s e Wimpy´s. E a cidade sede da universidade era Hamburgo, que remete a hambúrguer. Algum tempo depois, a revista brasileira publicou uma errata.
Agradecimentos Terra Mulher


